O segundo contributo é sobre educação
“Educar é amar e fazer crescer.”
A cultura e a educação são interdependentes e indissociáveis, razão pela qual é fundamental incentivar politicamente o estabelecimento de protocolos entre municípios, instituições culturais e desportivas locais e escolas, fomentando uma maior dinâmica de atividades culturais, artísticas e desportivas, tanto na comunidade como na escola, incluindo a arte de rua, com o envolvimento de toda a população. Esta iniciativa de cultura de proximidade é essencial para darmos motivos de esperança visíveis nas comunidades para as adversidades que enfrentamos no contexto atual.
Ora, o sistema educativo em Portugal está obsoleto, tem demasiadas horas letivas, especialmente até ao 9º ano, currículos exageradamente longos e especializados, também principalmente até ao 9º ano, muito centrados na memorização de conteúdos, sem tempo para explorar outras valências, com turmas muito grandes, impedindo os professores de estabelecer uma relação interpessoal mais próxima e empática com os alunos e assim, melhor perceber as suas necessidades, pontos fortes e pontos fracos. Por seu turno, os alunos entraram numa espiral ascendente de total falta de respeito pelo corpo docente, passam uma boa parte do seu tempo de aulas nos telemóveis, chegando a tornar-se agressivos quando lhes é dito que os guardem, ou noutra situação qualquer em que as coisas não se passem exatamente como eles querem. Nestas condições, e acrescentando a isto, a impossibilidade de arranjar alojamento condigno em certas regiões, os professores fogem de vir lecionar nessas áreas (Algarve, por exemplo, mas não só) e os que poderiam enveredar pela carreira de professor não a escolhem, preferindo algo onde não sejam maltratados sistematicamente pelos alunos e muitas vezes também pelas respectivas famílias.
Nesta perspectiva, pretendo que, para além dos conteúdos programáticos tradicionais, se valorizem e destaquem outros, como:
a cidadania participativa,
o desenvolvimento pessoal,
a literacia financeira,
a ética,
a promoção da saúde e bem-estar emocional e físico,
O respeito por todas as pessoas, pela natureza e pelos animais.
Estes objetivos são conseguidos não apenas pela sua inclusão obrigatória nos currículos escolares, mas principalmente pela inclusão de atividades cívicas e de voluntariado fora da escola, nas atividades escolares e pela participação em projetos diversos.
É também necessário pugnar por:
garantir turmas mais pequenas, permitindo um acompanhamento mais próximo aos alunos.
maior e melhor inclusão dos alunos e alunas com necessidades especiais,
fomento da aprendizagem no terreno em detrimento da sala de aula,
utilização de metodologias inovadoras de ensino.
Deste tipo de abordagem, resulta naturalmente o reforço da interação entre alunos e educadores docentes e não docentes, melhorando assim a comunicação e a aprendizagem.
Assim, no que se refere às atividades diárias e para que as turmas funcionem sem dificuldades acrescidas tanto para professores como para alunos, é também essencial:
reduzir os horários efetivos dos alunos, eliminando os períodos sem aulas ao longo do dia, e
reduzir consideravelmente os trabalhos de casa, considerando que as atividades fora da escola e os tempos de lazer são igualmente importantes para o bem-estar físico e mental dos alunos.
No que se refere à oferta educativa complementar às disciplinas tradicionais, e para que os nossos alunos cresçam num ambiente de tolerância e respeito pelas pessoas, natureza e animais, é essencial:
incentivar a integração de animais, jardins e hortas biológicos ou regenerativas em todos os espaços escolares, com responsabilidades partilhadas, promovendo e fomentando a relação dos alunos com os ritmos da natureza e dos animais.
apoiar o desenvolvimento de projetos pedagógicos realizados na natureza e espaços verdes, com sensibilização para a necessidade de proteção de recursos essenciais como os solos, a água, as espécies e seus habitats, em terra e nos oceanos.
incluir na maioria das disciplinas abordagens à educação cívica e cidadania, literacia social e financeira, proteção do ambiente e animais, etc., e atividades de cidadania e voluntariado, preferencialmente em contato com a população.
estratégias anti-bullying e de salvaguarda da segurança nas escolas,
atividades de sensibilização para as problemáticas da corrupção e dos direitos humanos.
incluir sistematicamente programas de voluntariado e aprendizagens fora da sala de aula e fora da caixa, como por exemplo o Prémio Duque de Edimburgo (mas há muitos mais programas e projetos), e as atividades de Ciência Cidadã, que começam agora a surgir.
promover uma abordagem mais humana e compassiva nas escolas, tanto no que se refere aos alunos como aos professores, tentando a assertividade em vez da agressividade e acomodação, evitando também medidas drásticas.
Estes objetivos conseguem-se não apenas integrando os temas nos currículos escolares, mas também participando em projetos diversos, como o “Selo Protetor”, as “Escolas Amigas dos Direitos Humanos”, a “Rede de Escolas Unesco”, a “Rede de Escolas Anti-Corrupção All4Integrity”, a “Rede de Escolas Azuis”, o “Premio Infante D. Henrique”, as conferências “Model United Nations”, “Technovation Girls”, “The Earth Prize”, “Programa Eco-escolas”, “Plataforma de Educação Escolar Europeia”, “ERASMUS+” entre muitos outros.
Quanto aos conteúdos programáticos das diversas disciplinas, urge:
rever os currículos praticamente todos, simplificando-os, flexibilizando-os, baseando-os mais no saber fazer, e tornando-os mais atrativos para os alunos.
centrar os currículos nos alunos e suas aptidões e não nos professores e seus interesses pessoais.
rever o nosso sistema de áreas no secundário que obriga os alunos praticamente a escolher uma carreira aos 14 ou 15 anos, o que é manifestamente cedo.
rever os programas, adotando um esquema de aprofundamento gradual dos mesmos temas, permitindo que alunos que não tenham feito uma opção no 10º/11º, possam ainda fazê-la no 12º, desde que se empenhem e estudem o suficiente.
adotar um esquema de opções mais flexível no secundário, que permita aos alunos ter opções de diversas áreas curriculares no 10º ano, e manter para exame, apenas as que quer realmente fazer, mesmo que ainda de diversas áreas, aumentando assim, as possibilidades de escolha de cursos posteriormente.
Quanto aos manuais escolares, a partir do segundo ciclo, é importante garantir que os mesmos são “user friendly”, tanto para alunos, como para professores: os temas são subdivididos em unidades de 2 ou 3 páginas, com atividades práticas, gráficos, diagramas e perguntas em cada subdivisão, e perguntas semelhantes às dos exames (no caso dos secundários) no final de cada unidade.
Já no primeiro ciclo, é importante:
usar uma abordagem o mais livre possível, em que a criança desenvolva essencialmente atividades exploratórias,
aprender usando as artes plásticas, os jogos, o movimento e os sons, e
fomentar uma rede de jardins-de-infância inclusivos, que sejam respeitadores das necessidades das crianças, nomeadamente no que se refere ao período de sesta, ao contacto com a natureza e com os animais, ao direito a brincar, à educação para os afetos, entre outros.
É também urgente dignificar a carreira docente.
devolvendo-lhes o que lhes foi roubado em tempo de serviço pelos diversos governos,
oferecendo-lheshabitação condigna a custos por eles suportáveis nas zonas onde tal não existe,
não os obrigando a fazer as tarefas administrativas,
devolvendo-lhes os tempos fora da escola quando não estão em aula, pois muitas vezes é infinitamente mais produtivo preparar aula/atividades e corrigir testes e trabalhos noutros locais,
garantindo-lhe real proteção nos casos dos alunos agressivos,
promover a fixação do pessoal docente e não docente nas escolas, preferencialmente das suas regiões de origem, promovendo um melhor processo educativo e não provocando as disrupções familiares que hoje se verificam, e anos inteiros de vida no maior desconforto.
retirar os telefones dos alunos, pelo menos durante as aulas, e promover ações de sensibilização junto de alunos e famílias sobre o papel dos professores na sociedade.
Gostaria assim de ver o LIVREcomprometido com envidar todos os esforços para que estas recomendações venham a ser incluídas nos programas escolares nacionais, de forma clara e inequívoca, com caráter permanente e obrigatório, ao invés de algo que poderá ou não ser aplicado, ao sabor das vontades de cada um.
Maria João Sacadura e Serrano
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